segunda-feira, 15 de junho de 2009

Relatos dos Acontecimentos na USP

Recebi estes depoimentos por e-mail, foram enviados pela Luciana Carla, uma amiga, então resolvi postar na íntegra, preservando apenas os endereços dos contatos.

Segue na íntegra o e-mail que recebi (não alterei o conteúdo, apenas formatei para melhor visualização:



OLÁ ALÊ TUDO BEM? ESPERO QUE ESTEJA SE RECUPERANDO...RECEBI ESTE E-MAIL DE UMA AMIGA ANTROPOLOGA ESTUDANTE DA USP. ELA ESTEVE PRESENTE NA ÚLTIMA 3F DURANTE A MANIFESTAÇÃO DOS ESTUDANTES, PROFESSORES E FUNCIONÁRIOS DA USP. PENSEI QUE SERIA LEGAL BEM COMO INTERESSANTE E SE POSSIVEL VC PUDESSE AJUDAR DIVULGANDO NO SEU BLOG CRIANDO UM TEXTO BASEADO NESTES RELATOS...SIMPLESMENTE IMPRESSIONANTE!!!! BJSSSS E SE CUIDA

Titubeei muito antes de seguir para o portão um. Apesar da minha posição contrária a presença da PM no Campus, fiquei me perguntando acerca do método, se seria necessário um “trancasso” para demonstrar tal posição.

Enfim, fui.

O ambiente parecia amistoso. Todos cantavam, pensavam rimas, que às vezes não rimavam, e depositavam suas flores nos pés da força tática da PM, que se posicionou numa das calçadas, sempre muito silenciosa e estática (opa, consegui uma rima!). No fim da tarde, um impasse surgiu (como o Chiquetto descreveu). As discussões, as propostas levadas à votação e a dificuldade de se obter um resultado objetivo dos votos performatizou cisão (estrutural e momentânea) no movimento. Nesse momento, a PM (o alvo) desapareceu por completo. Todas as falas e as rimas não rítmicas eram dirigidas aos líderes do próprio movimento.

Enquanto negociações calorosas circundavam a multidão reunida frente ao caminhão de som, mais ao fundo, alguns manifestantes insistiam num confronto com os policiais da força tática que continuavam próximos da calçada. As palavras de ordem, as rimas não rítmicas cederam espaço para palavras de um fundo mais jocoso e irreverente, os manifestantes tentavam descobrir a identificação dos policiais, perguntavam sobre as esposas que ficavam sozinhas em casa para que eles pudesse invadir a universidades. Todo esse ambiente parecia não afetar a força tática que permaneceu estática (mais uma rima!).

E como o Chiquetto mesmo descreveu, o resultado das negociações separou os manifestantes. Uma parte seguiu para a reitoria e a outra permaneceu em frente ao portão. Eu fiquei entre os que voltaram para a reitoria. Quando eu estava próxima da rotatória em frente ao bandejão, percebi três viaturas que em alta velocidade se dirigiram para o Portão 1. Logo depois ouvimos as primeiras bombas. Alguns manifestantes começaram a gritar pedindo para que todos voltassem para o portão. O caminhão deixou a reitoria e começou a voltar. Todos nós começamos a correr no sentido do portão 1. Entre os líderes do movimento sindical começou uma discussão, um deles dizia: “vamos invadir a reitoria agora, é uma forma de garantirmos a integridade física dos demais” outros dois gritaram: “não, agora temos que correr e defender nossos irmãos, depois pensamos na reitoria”.

O grupo de manifestantes que estava na reitoria,corria muito. Na rotatória, próximo ao Cepeusp, formou-se uma barreira de pessoas para tentar conter o fluxo dos carros e garantir que os manifestantes passassem. Não demorou muito para que um carro que participava do ato passasse por nós com um estudante ferido. A frente de nós, na direção do portão 1, havia muita fumaça. Eu consegui chegar apenas até a Faculdade de Educação, nesse momento fomos alcançados pela multidão que vinha do Portão 1 e que corria num sentido contrário ao nosso. Um líder, no caminhão de som, pedia para que todos se mantivessem calmos e para que não corressem. Eu tentei. Impossível não correr nesse momento!

Bom, enquanto todos seguiam em direção a Reitoria, eu pensei em me dirigir para a FFlCH, para covardemente, fugir da PM. Quando cheguei à História havia outros fugitivos por lá. Percebemos que os professores da Adusp estavam reunidos no auditório. Corremos e avisamos acerca da situação. Todos abandonaram a sala e correram em direção a Reitoria. Quando voltava para a reitoria por trás, vi toda a multidão correndo na direção da FFCLH, dentre estes, muitos professores (alguns da Sociais, inclusive).

Ficamos no prédio da História, uma barricada de bancos e carteiras foi montada como forma de resistência. A quantidade de helicópteros aumentou consideravelmente. Contei seis deles sobrevoando a FFLCH. Recordo-me de ter visto essa mesma quantidade de helicópteros apenas na visita do Papa e do Bush a São Paulo. Fiquei um tempo em silencio, ouvindo o barulho das bombas, sentindo um ardido diferente nos olhos e tentando acreditar em tudo que havia visto. Fiquei apenas até as 19h, não esperei o inicio da assembléia.

A experiência de hoje me permitiu renovar noções como vulnerabilidade, dissolução, unidade e flexibilidade. E me fez perceber ainda, que preciso me preparar fisicamente para correr da policia.

Jacqueline Moraes Teixeira

(Ciências Sociais - USP)


Lu, agora segue o relato de dois professores

beijão

Jacque


Caros,

diante dos trágicos acontecimentos de hoje, os estudantes reunidos em assembléia na av. Luciano Gualberto, em frente ao prédio de história e geografia deliberaram:

1. fazer uma vigília hoje à noite na USP;

2. realizar um ato amanhã às 12 horas em frente à reitoria para seguir em protesto até a paulista;

3. realizar uma assembléia geral de estudantes na segunda-feira, 18h, em frente à reitoria;

Acho que seria importante que estivéssemos todos em frente à reitoria ao meio dia de amanhã.Quem estava na USP hoje sabe que o que aconteceu foi dramática, lamentável e completamente inaceitável. Precisamos estar presentes amanhã e discutir como responder a essa situação absurda. Encaminho, abaixo, dois relatos de professores que recebi na noite de hoje e algumas fotos e vídeos. Segue anexo o boletim extraordinário da Associação dos Pós-graduandos da capital.

abraços,

até amanhã,

Maria

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Prezados colegas, amigos e alunos,

estou estarrecido. Nunca pensei que ia viver isso na na nossa universidade. Uma indignação enorme me fez deixar a assembléia de professores no prédio da História e descer correndo para a reitoria. A
informação que tinha chegado à nós era de que o batalhão de choque estava soltando bombas sobre os estudantes e funcionários na reitoria.


De alguma maneira, como professor, imaginei ter - junto com outros colegas - a força necessária para arrefecer o conflito. Era preciso evitar o pior, evitar que algum estudante se machucasse. Tínhamos visto nos jornais no dia anterior, policiais com metralhadoras.

Chegando mais perto, uma fumaça enorme, estudantes correndo, e um clima bastante ameaçador. Um aluno passou por nós dizendo que não devíamos ficar ali. Retruquei: Não. Vamos ficar aqui.

Descemos mais um pouco e uma tropa de choque, cacetetes, bombas, spray de pimenta, marchou em nossa direção.
Subimos a calçada, que passem ! Tratava de saber o que de fato ocorria, procurar responsáveis, tentar negociar, verificar se alguém estava ferido. Mais perto, um policial do batalhão - uns quinze -
mandou a gente se afastar. Dissemos que éramos professores. Se afastem! gritaram. Somos professores! Eles jogaram spray de pimenta na nossa direção. O Thomás que estava um pouco mais a frente, de carteirinha na mão, recebeu o spray nos olhos. Saímos correndo. Uma bomba de gás caiu a um metro dos meus pés. Parei um pouco e olhei na direção dos policiais com toda a raiva que já pude sentir.

Um policial com uma bomba na mão olhou pra mim. Senti que iríamos receber mais um presente da corporação. Estupei o peito e falei gritando: Você vai jogar na gente? Somos professores! Você vai jogar?
O absurdo era tanto que fui mais absurdo ainda. Como eu podia fazer um negócio desses? Mas fiz.

Não dava mais para ficar lá. Chamei a Vivian Urquidi e o Jorge Machado para subir novamente até à História. O Thomás já tinha saído porque mal conseguia abrir os olhos. Meus olhos também ardiam muito.

Eu só gostaria de saber: o que um professor de carteirinha na mão, um outro com mochila nas costas, pasta em uma mão e blusa na outra, outra professora com uma flor na mão representam de perigo ao patrimônio da USP? Gostaria de saber até onde a tese de preservação do patrimôniose sustenta? Que espécie de comunicação e negociação é essa, que coloca policiais cegos a serviço da Reitoria? Para onde fomos? Para onde foi a experiência de 75 anos em produzir saber?

Saudações acadêmicas.

Rogério Monteiro de Siqueira

Professor Doutor EACH-USP
História e Geometria
http://www.each.usp.br/rogerms
Escola de Artes, Ciências e Humanidades - Universidade de São Paulo
Arlindo Bettio, 1000, Ermelino Matarazzo, 03828-000, São Paulo.

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Prezados colegas,

Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre o que acontece no Co (transmitindo as pautas antes da reunião e depois enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião do Co porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e, com a greve, não podia ser reparado. Dada a urgência dos atuais acontecimentos, consegui resgatar os emails e criar uma lista emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes.


Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).


Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário. Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem
que é conveniente.

Cordialmente,

Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo

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seguem também aguns vídeos e fotos:

http://www.youtube.com/watch?v=xwL-b6LUOb4
http://www.youtube.com/watch?v=sIVLuuag9G0
http://www.youtube.com/watch?v=YNAzxgGtGpA
http://www.youtube.com/watch?v=deUf8An9Q1o

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/06/448641.shtml
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/06/448626.shtml
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/06/448656.shtml




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