domingo, 25 de outubro de 2009

Liderança Sustentável: não são apenas números


É a história clássica. Em um ano, o líder empresarial tem números excelentes para mostrar nos relatórios. Festas, comemorações, prêmios para os responsáveis. Acionistas com um sorriso de orelha a orelha e funcionários com bônus largo no fim do ano. Mas isso só dura naquele ano. Logo vem a crise global e todos, sem dó nem piedade, são afetados. Os resultados polpudos viram prejuízos em relatórios semestrais, os acionistas reclamam por uma atitude, os clientes não respeitam mais a sua marca e os funcionários iniciam uma evasão em massa. Acredite, essa história aconteceu muitas vezes neste ano, e nem sempre por conta da crise, que no final é a desculpa perfeita. O que era cristalino vira pó.

E aí, você está na gestão de um negócio importante. Como se prevenir em situações como esta? É possível garantir bons resultados sempre?

O que se deve ter em mente como primeira regra é: não estamos falando apenas sobre números. Agregue a palavra “sustentabilidade” à sua vida. Aquela mesmo, tão falada nos últimos tempos e que não tem só a ver com pensamentos ambientais. Vamos ao sentido da palavra. Sustentável vem de sustentação. É algo que se sustenta, se permite estar na mesma posição por muito tempo. Como se sua empresa estivesse em uma mesa com vários pés. Se um deles sair debaixo de você, a sustentação acaba e você cai.

Segundo o professor e headhunter Luiz Carlos Cabrera, o melhor conceito de desenvolvimento sustentável foi criado por Gro Harlem Bruntland, ex-ministra da Noruega, em 1987: “Desenvolvimento sustentável é suprir as necessidades da geração presente sem afetar as habilidades das gerações futuras de suprir as suas”. É bem essa a ideia mesmo. Não precisamos salvar o mundo ou partir para teorias mirabolantes que coloquem tudo em ordem em um passe de mágica. O fundamental é fazermos o melhor que pudermos, sem atrapalhar o desenvolvimento futuro, buscando, nas atividades diárias, o equilíbrio entre os aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Prover o melhor agora para as pessoas, o planeta e o meio ambiente, para que as próximas gerações possam fazer o mesmo.

O conceito de liderança sustentável está em voga hoje, mas é algo que deveria ser visto desde sempre. Ao mesmo tempo em que uma mesa não se sustenta sem um dos pés, uma empresa não fica de pé sem um de seus apoios. E não é só o lucro. Falamos de funcionários, fornecedores, clientes, acionistas, comunidade... Toda uma cadeia de pessoas e processos relacionados com as suas operações. Principalmente em tempos de crise, quando os lucros diminuem e o perigo de quebra pode ser iminente. E você, como líder, deve tomar as principais decisões que levarão (ou não) a sustentabilidade de sua empresa. Como bem apontou o professor do MIT Peter Senge no último Fórum Mundial de Liderança e Alta Performance: “Em um momento de crise, todo mundo fica esperando que alguém faça alguma coisa e, em geral, chamamos isso de liderança”. E quem vai se diferenciar é quem pensar na frente e liderar para o futuro.

Os períodos de crise são extremamente úteis para esta discussão, pois neste momento vem à tona os valores mais profundos de uma organização e o caminho para as decisões fica mais claro. Desse modo, enquanto a maioria das empresas amarga a retração, muitas, por outro lado, vão melhorar significativamente sua participação de mercado.

Ter uma liderança sustentável é pensar de várias maneiras com várias finalidades, mas com o foco em tornar o negócio sustentável de uma forma que ele não dependa mais ou menos de um dos “pés da mesa”. A igualdade entre os pilares que a sustenta deve ser equilibrada e focada nos resultados, sem medo de tomar atitudes. Como bem lembrou Peter Senge: “Em estado de medo, nós concentramos nossa atenção automaticamente e, ao fazê-lo, a nossa consciência periférica, assim como nossa visão periférica, desaparece, e entramos num baixo estado de consciência. É a maneira de nos focarmos na ameaça.” Na opinião de Senge, muitas empresas estão aterrorizadas e, assim, estão reagindo sem pensar - ou não estão pensando mais perifericamente.

Por isso, este é o momento de agir com consciência e pensando nos pilares que o levantam. Tenha foco nos seus resultados, mas não deixe de pensar em ações socialmente corretas, tanto com o meio ambiente afetado pelos seus negócios quanto com as pessoas ao seu redor. Pegue os valores de sua empresa (e também os seus) e pratique ações culturalmente aceitas, zelando assim pelas coisas em que você acredita e sendo ético e sincero com a sociedade. Pense no impacto que você causa e discuta com fornecedores, acionistas e a comunidade que o cerca. Faça com que as pessoas que trabalham ao seu lado tenham um ciclo de vida profissional que seja interessante tanto para ela quanto para a empresa. E entenda que algumas coisas decididas não vão ter resultados imediatos, muitas coisa são trabalhos de longo prazo. Mas como lembramos lá no começo: isto não é apenas sobre números. É a busca de um equilíbrio ideal entre o que você tem como objetivos e o que esperam de você. Afinal de contas, a mesa precisa ficar de pé.

Podemos encerrar esse chamado à liderança sustentável com as dicas de Luiz Carlos Cabrera para que você atue como líder que pensa em sustentabilidade no dia-a-dia.

Não seja superficial. Isso é perigoso. Não dê respostas “mais ou menos”. Não chute. Isso deixa marcas indeléveis. Se você não domina ou não conhece um assunto, é melhor dizer “não sei”.

Quando estiver perseguindo objetivos, não perca o foco. Muitas vezes, não focamos o que é realmente importante, e acabamos fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, dispersando a nossa energia. Reza uma lenda que um profissional foi contratado para drenar um pântano, em um espaço determinado de tempo. Como, ao iniciar o trabalho, deparou com jacarés que habitavam o pântano, passou a centrar esforços na eliminação dos jacarés. Conclusão: embora tenha conseguido aniquilar boa parte dos jacarés, ao final do prazo contratado, o profissional não conseguiu cumprir o objetivo para o qual havia sido chamado, que era drenar o pântano.

Nunca desdenhe o trabalho e nem a educação. Desdenhar alguma coisa como uma tarefa, um projeto ou uma atividade, pode acarretar marcas negativas. Evite isso.

Tenha um propósito na vida, abrace uma causa, viva uma vida que valha a pena ser contada e não adie as coisas. Você pode e deve exercer sua liderança de forma a se orgulhar dela e de tal modo que possa descrevê-la, na sua biografia, com orgulho.

HSM Online
03/09/2009

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