quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Adalberto Monteiro: “Você se lembra, lembra?”

Tua voz estava rouca
de tanto gritar “liberdade”.
E eu, exausto de combater os adversários,
os corsários,
Descansava no teu colo.
E as tuas mãos,
que há pouco
fechadas em socos
gritavam, “Revolução”, “Revolução”,
agora,
eram plumas percorrendo os meus cabelos
os meus pelos.

Fico imaginando,
a gente andando,
a gente se amando
pelas ruas daquela cidade operária
muito, muito maior que a nossa.
Aquele frio cortante,
aquela manhã,
e nós dois tomando
uma xícara de café extremamente quente
servido por um rapaz pálido e triste
numa mercearia perdida
em São Bernardo.

Fico imaginando,
Se conseguistes passar naquela prova
de anatomia, ou, fisiologia
- não me lembro bem –
que a todo instante
entre as votações, as manifestações,
te preocupava.

Fico imaginando
se ainda se encontra na tua estante
o livro Stálin que pediste,
ou, se já se rasgou o cartaz
colorido com um verso do Drummond
que eu te dei.

Fico pensando, o que fazes, por onde andas?

Porque eu me lembro bem,
do leve gosto de sal
que os meus lábios sorveram
de uma lágrima que escorria no teu rosto
quando, no último Congresso da UNE,
discursava a mãe de Honestino Guimarães.

Adalberto Monteiro
Os sonhos e os séculos
Editora Círculo Azul Livros – edição 1991

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