quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Euclides da Cunha - No túmulo de um inglês

És bem feliz,mylord!... na tua tumba fria
Um sono gozas, bom — no seio da soedade
Feliz!... não tens o Sol de tu'Albion sombria
Mas tens o olhar de Deus — O Sol da eternidade!...

És bem feliz mylord a triste ventania
Soluça nos ciprestes os cantos da saudade...
Quem sabe se te traz — em vozes de agonia—
Os risos e as canções de tua mocidade!...

Estás livre do splen... invejo-te deveras...
Do túmulo a sombra espanca as pálidas quimeras.
— Em teu berço de pedra embala-te a soidão...

És bem feliz mylord — assim antes eu fora!...
Tu tens a calma eterna, a solidão sonora
E tu não tens — feliz — não tens — teu coração...
Rio — 2 de Novembro 1883.
Este túmulo está no cemitério de Catumbi — tornou-se-me saliente saliente pela isolação em [que] se acha — quase em pleno mato — completamente separado dos outros. Antes de ler a inscrição na lousa — onde este soneto fiz — adivinhei ser de um inglês...

Poema inédito e manuscrito do caderno de adolescência Ondas, escrito aos 17 anos. Euclides acrescentou-lhe a uma nota explicativa no final da página. Mantida ortografia original.


Extraído dos "Cadernos de Literatura Brasileira",
números 13 e 14, Dezembro de 2002, publicação do Instituto Moreira Salles, pág. 151.

1909/2009 - Lembramos os 100 anos do falecimento do autor.

Fonte: Releituras.com

0 comentários:

Postar um comentário