quinta-feira, 8 de abril de 2010

Adoniran musicou o cotidiano de São Paulo

“Ele faz uma mistura boa, né?”, diz Cristina Buarque. “E falando coisas da vida das pessoas...” Cronista de São Paulo por excelência, Adoniran Barbosa juntou humor e drama ao falar da vida das pessoas e de seu lugar. Em 6 de agosto, quando completaria 100 anos (morreu em 1982), ou em qualquer tempo, sua obra estará sobrevivendo à modernidade mais do que a própria cidade.

Por Vitor Nuzzi, em Brasil Atual


Com a recuperação de seu acervo pela família, no final do ano passado, existe a expectativa de criação da Casa Adoniran. A rigor, já existe uma, bem longe daqui. “Em um kibutz em Israel, acredite, financiada com dinheiro público por lá. E aqui, nada”, diz o jornalista Celso de Campos Júnior, autor de uma biografia do artista que acaba de ser relançada.


O kibutz brasileiro Bror Chail inaugurou a casa dedicada a Adoniran em 2008, com patrocínio e apoio da Embaixada do Brasil e do Itamaraty. A região é cidade-irmã de Sorocaba (interior paulista), conta o presidente da Comissão Pública do Museu Adoniran Barbosa em Israel, Tzvi Chazan, nascido no bairro paulistano do Bom Retiro e ex-cônsul geral em São Paulo.

O museu funciona aos sábados, com entrada gratuita. “Este ano, para comemorarmos o centenário de Adoniran, o plano é transformá-lo no Centro da Música Popular Brasileira em Israel”, diz Chazan. “Estamos planejando exposições sobre Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Elis Regina e Clara Nunes – naturalmente, tendo no centro o grande artista que foi Adoniran Barbosa. Enfim, um pouco do samba de São Paulo e do Brasil
em Israel.”

Adoniran
já teve um museu no Brasil, anos atrás, instalado no Centro Velho de São Paulo. Conforme lembra sua única filha, Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, o acervo foi cedido à Secretaria de Cultura do Estado, levado para o mezanino do teatro Sérgio Cardoso e passou para o Museu da Imagem e do Som (MIS), na capital paulista.

“Mas isso é passado. Agora voltou para mim e para meu filho, e será exposto como se deve, se Deus quiser”, diz Maria Helena, que não viveu com Adoniran – o casamento dele com sua mãe, Olga Rodrigues, durou pouco mais de um ano. “As lembranças são as mais agradáveis. Era como um ‘tio’ alegre e divertido, brincalhão, boa-praça”, recorda.


A preocupação, agora, é garantir a preservação da memória. “O primeiro passo para a criação desse espaço deve ser a catalogação do material, riquíssimo em fotos, documentos, partituras, roteiros”, acrescenta Celso.


Maria Helena não tem ideia do tamanho do acervo. “É muita coisa. A Mathilde foi uma ‘arquivista’ sensacional. O projeto é lindo, e quem mais ganharia seriam a cidade de São Paulo e as crianças.” Mathilde de Luttis viveu com Adoniran durante mais de 40 anos. Ele, nascido João Rubinato e natural de Valinhos (SP), adotou o pseudônimo em homenagem ao amigo Adoniran Alves e ao sambista carioca Luiz Barbosa.


Para Celso, Adoniran é uma espécie de “fio condutor” da vida paulistana. “Três de suas principais características eram a versatilidade, a curiosidade e a capacidade de transitar pelos mais diferentes cenários. Assim, ele estava sempre por perto das novidades, mostrando sua cara e tentando cavar seu espaço. Acrescente-se a isso uma boa cara de pau. O cinema era a coqueluche do momento? Lá estava Adoniran. As novelas da TV Tupi estouravam de audiência? Adoniran cobrava do amigo Carlos Zara, então diretor da emissora, um papel”, relata. “E, claro, não só isso: em sua obra musical, Adoniran viveu e cantou as mudanças da cidade – o samba do metrô, a canção para a Praça da Sé remodelada...”


Então, em vez de Rita Lee, como cantou Caetano Veloso em Sampa, Adoniran é que seria a “mais completa tradução” da cidade? Para o jornalista e pesquisador Ayrton Mugnaini Jr., autor de outra biografia sobre Adoniran, são personalidades complementares.


“Já que sou tradutor, aproveito a metáfora e digo que Rita é uma tradução livre de São Paulo e Adoniran, uma tradução formal. Rita simboliza a capacidade que São Paulo tem de se transformar, modernizar e absorver influências estrangeiras, e Adoniran representa a resistência da cidade no que ela tem de mais tradicional e antigo”, compara.


Paulistana que mora no Rio há mais de 30 anos, Cristina Buarque testemunha as mudanças vividas por São Paulo. “A Henrique Schaumann era uma ruazinha estreita...”, conta, falando de um dos locais onde morou com a família. Sobre a recorrente comparação entre o samba paulista e carioca, ela passa ao largo. “Tem bons compositores aqui e lá, e maus aqui e lá também. Como tudo, né?”, afirma a cantora, que na obra de Adoniran elege entre os seus favoritos Abrigo de Vagabundos, Apaga o Fogo, Mané e No Morro da Casa Verde. “Esta eu cantava desde o começo, nas serenatas”, diz Cristina.


Caso único


Com “70 anos de samba e 55 de avenida”, Oswaldinho da Cuíca nem pisca para falar de seus preferidos: Despejo na Favela, Eu já Fui uma Brasa e Saudosa Maloca. Ele conheceu Adoniran ainda nos anos 60, nos tempos de Record, onde durante muito tempo o compositor brilhou como ator de rádio, no célebre programa História das Malocas, escrito por Oswaldo Molles. “O progresso fez com que se perdesse o estilo do Adoniran, o sotaque italiano, o andar mais lento do samba”, diz Oswaldinho.


Segundo ele, o estilo passou por um processo de urbanização, perdendo características. “Viajei o mundo inteiro, e eles procuram cópias do padrão que veem na TV”, conta. “Só a Bahia manteve o samba do Recôncavo. Acabou o samba regional, o padrão adquirido foi o carioca. O samba paulista era executado por cordões, não por escola de samba, que vêm dos ranchos. E há muito tempo não tem cordões
em São Paulo.”

Mas
Adoniran resistiu. Vista mais pelo lado cômico, com os famosos erros de português, a obra tem um lado social agudo. “Boa parte dos clássicos, que a maioria canta como um sambão despretensioso e engraçado, é sim trágica – vide Saudosa Maloca, por exemplo”, destaca Celso de Campos.

"Adoniran fez samba sobre o dia a dia do povo, em especial a parcela mais pobre, de uma forma muito peculiar. Como sabemos que esse cotidiano não é exatamente um mar de rosas, essa face trágica está muito presente, em temas como despejo ou enchente – mais atuais do que nunca, aliás. Mas, claro, há também muita composição cômica. Diria que o fio condutor de seu cancioneiro é o caráter social.”


Para Ayrton Mugnaini, a irreverência chega a ser um obstáculo para a avaliação da obra. “O grande problema é que, talvez por molecagem, pirraça ou vontade de se vingar da infância pobre, muitas vezes Adoniran dava respostas diferentes às mesmas perguntas sobre a inspiração de determinadas canções, sua data de nascimento, os discos que gravou. E percebi que nem todos o levam a sério como compositor, alguns o julgando apenas um bom ator cujos papéis incluem o de compositor – mas Raul Seixas, por exemplo, dizia a mesma coisa de si mesmo.”


A mais famosa das histórias, talvez, seja a do Samba do Arnesto, que fala de um personagem real, Ernesto Paulelli. “Na pesquisa, recolhi três entrevistas do próprio Adoniran, em diversas épocas, contando três histórias diferentes sobre a origem do Samba do Arnesto”, conta Celso.


“Às vezes, ele dizia que o Arnesto era invenção; às vezes, dizia que existia mesmo – o que comprovou ao presentear o ‘padrinho’ com a partitura 001 do samba. Às vezes, dizia que nunca houve o convite para o samba no Brás, e às vezes contava a mancada do Arnesto em detalhes cinematográficos”, lembra.


“Isso vale para Trem das Onze também: dependendo do humor, dizia que era passageiro ou não do tal trem, que aliás nunca saiu às 11 da zona norte...” Ao amigo Paulo Vanzolini, que perguntou certa vez por que ele no samba escreveu “moro em Jaçanã”, se os habitantes do bairro dizem “moro no Jaçanã”, Adoniran brincou: “E eu sei lá onde fica essa porcaria?”.


Da mais famosa música de Adoniran, único samba “paulista” a ganhar concurso no Rio de Janeiro, Ayrton conta que há pelo menos três versões estrangeiras, em italiano, hebraico e espanhol. “Só os Demônios da Garoa gravaram pelo menos duas continuações, como Adeus Cantareira e Último Trem. Paródias também há muitas, como uma recente que ouvi gozando o gerundismo: “Não posso estar ficando nem mais um minuto com você, se eu estiver perdendo esse trem que vai estar saindo agora às 11 horas...”


A gaiatice não tinha fim. No Samba do Arnesto, depois do breque na música vinha um “o que foi que nóis fez?”, que os Demônios da Garoa substituíram por “nóis não semos tatu”. “Por sinal, a gravação original de Adoniran oferece uma terceira alternativa, um singelo ‘num faz mar’”, lembra Ayrton. Adoniran também inovou ao compor o Samba Italiano, misturando idiomas.


E quem mais apresentaria ao mundo da música um cachorro compositor? Pois Peteleco, o totó de Adoniran, assina algumas de suas canções – o que causou, inclusive, um desentendimento com o cantor Noite Ilustrada, porque Adoniran deu a parceria de uma música deles para Peteleco.


Inspiração, talvez, para o pop rock. “Lembro-me agora do conjunto inglês The Who, que compôs um tema em ‘parceria’ com dois cães, um pertencente ao contrabaixista e outro ao baterista, que participaram latindo na gravação”, conta Ayrton. “Adoniran e o Who são casos quase únicos. Normalmente, compositores atribuem obras a cônjuges, filhos, pai ou mãe, profissionais influentes como empresários e radialistas, ou a amigos.”

Fonte: Vermelho

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