sábado, 26 de junho de 2010

Pablo Neruda - Vinte poemas de amor e uma canção desesperada

Poema 1

Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,

te parecem ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de campônio selvagem te escava
e faz saltar o filho do fundo desta terra.
Fui só como um túnel. De mim foram-se os pássaros
e em mim a noite entrava com sua invasão poderosa.
Para sobrevier-me te forjei como uma arma,
como uma flecha em meu arco, como uma pedra em minha funda.
Porém chega a hora da vingança, e te amo.
Corpo de pele e de musgo, de ávido leite e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de minha mulher, continuará em tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limites, meu caminho indeciso!
escuras rugas de onde a sede eterna segue,
e segue a fatiga, e esta dor infinita.

Poema 2


Em sua chama mortal a luz te envolve.

Absorta, pálida dolente, assim localizada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno a ti dão voltas.
Silenciosa, minha amiga,
solidão do solitário desta hora das mortes
e cheia das vidas do fogo,
pura herdeira do dia destruído.
Do sol rui um racimo em teu vestido escuro.
Da noite das grandes raízes
crescem subitamente de tua alma,
e do exterior regressam as coisas em ti ocultas.
De modo que um povo pálido e azul
de ti recém nascido se alimenta.
Oh grandiosa e fecunda e magnética escrava
que do círculo que em negro e doirado chega:
erguida, trata e logra uma criação tão viva
que sucumbem suas flores, é cheia de tristeza.

Poema 3


Ah vastidão de pinheiros, rumor das ondas quebrando,

lento jogo das luzes, solitária cabana
crepúsculo abatendo-se em teus olhos, boneca,
caramujo terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e minha alma se perde neles
como tu o desejas e fazia para donde tu o querias.
Marca-me em teu caminho meu arco de esperança
e soltarei em teu delírio meu disparo de flechas.
Em torno de mim estou vendo tua cintura de nevoa.
e teu silêncio me acusa minhas horas perseguidas,
e tu és como teus braços de pedra transparente
donde meus beijos perdem e minha úmida ânsia abriga.
Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim nas horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrar-se as espigas em a boca do vento.

Poema 4


Eis que manha chega de tempestade

em um coração do verão.
Como alvos lenços de adeus passeiam as nuvens,
e o vento os sacode com suas mãos andarilhas.
Incontável coração do vento
batendo sobre nosso silencio enamorado.
Zumbindo entre as árvores, orquestrais e divinas,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva num rápido surrupio a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que a derruba em onda sem espumas
e sustâncias sem peso, e fogos inclinados.
Se irromper e se submerge seu volume de beijos
combatido na porta do vento de verão.

Poema 5


Para que tu ouças

minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as marcas das gaivotas nas praças.
Colar, de ébria cascavel
para tuas mãos suaves como as uvas.
E as perspectivo distantes minhas palavras.
Muito mais que minhas são tuas.
Vão esgueirando-se em minha velha dor como as heras.
Elas esgueirando-se assim pelas paredes úmidas.
Sóis vós a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão esvaindo-se de minha guarida escura.
Tudo tu a invades, tudo tu a invades.
Antes de ti povoaram a solidão que te ocupavas,
e estão acostumados mais que tu a minha tristeza.
Agora quero que digam o que quero dizer-te
para que tu ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia pode ainda de arrastar.
Furacões dos sonhos ainda às vezes a tomba
Escuta as outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Siga-me.
Siga-me, companheira, nessa onda de angustia.
Porém se vão tendo com teu amor minhas palavras.
Tudo o que ocupas tu, tudo o que o ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas alvas mãos suaves como as uvas.

Poema 6


Recordas-te como era no último outono.

Era a boina gris e o coração em calma.
Em teus olhos guerreavam as chamas do crepúsculo
e as folhas caíam na água de tua alma.
Apegada em meus braços como uma trepadeira.
as folhas recolhiam tua voz lenta e em tua calma.
Fogueira do estupor que em minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre minha alma.
Sinto viajar teus olhos e és distante como o outono:
boina gris, voz de pássaro e coração de casa
donde emigravam meus profundos anseios
e onde tombaram meus beijos alegres como as brasas.
Céu perspectivado de um navio. Campo perspectivado
das serras.
Tua lembrança é de luz, de fumo, de água em calma!
Mais fundo de teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam em tua alma.

Poema 8


Abelha branca zumbe ébria de mel em minha alma

e te estorces em lentas espirais de fumaça.
Sou o desesperado, a palavra sem ecos,
o que perdeu tudo, e o que tudo esvai.
Última amarra, ruído em ti minha ansiedade última.
Em mim gritas deserta e és tua a última rosa.
Ah silenciosa!
Fecha teus olhos profundos. Ali tange a noite.
Ah nua, teu corpo de estatua temerosa.
Tens olhos profundos de onde a noite se faz.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Se parecem teus sonhos como brancos caracóis.
Veio a dormir em teu ventre uma mariposa da sombra.
Ah silenciosa!
Aqui se fez a solidão de onde estava ausente.
Chove. O vento do mar caça errantes gaivotas.
A água anda descalça pelas as ruas molhadas.
Daquela árvore se queixam, como enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zumbindo em minha alma.
Renasce entre o tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!

Poema 10


Temos perdido também este crepúsculo.

Ninguém nos viu esta tarde com as mãos unidas
enquanto a noite azul tangia sobre este mundo.
E tenho visto desde minha janela
uma festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
se ascendia um pedaço de sol entre minhas mãos.
Eu te recordava como a alma apreendida
dessa tristeza que tu me julgas.
Então, aonde se encontrava?
Entre estas gentes?
Falando que palavras?
Por que me chega todo este amor de um golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma no crepúsculo,
e como um cão ferido tangeu aos pés minha capa.
Sempre, sempre te distancias entre as tardes
onde o crepúsculo corre maculando as estatuas.

Poema 12


Para meu coração basta-me teu peito,

para tua liberdade basta, minhas asas.
De onde minha boca chegará até o céu
o que estava entorpecido sobre tua alma.
É em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho das corolas.
Socava o horizonte com tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu falei que cantavas com o vento
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles é alta e taciturna.
e entristeces de pronto, como uma viagem.
Acolhedora como um velho caminho.
Te povoam ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e às vezes migraram e fugiram
os pássaros que adormeciam em tua alma.

Poema 13


Hei que fui marcado com as cruzes do fogo

o Atlas branco de teu corpo.
Minha boca era uma aranha que cruzava escondendo-se.
Em ti, detrás de ti, temerosa, sedenta.
Histórias que quis contar-te na boca do crepúsculo,
boneca triste e doce, para que não ficares triste.
Um cisne, uma árvore, algo longe e alegre.
O tempo das uvas,o tempo maduro e frugal.
Eu que vivi em um porto desde onde te amava.
A solidão cruzada do sonho e do silêncio.
Acorrentado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dos gondoleiros imóveis.
Entre os lábios e a voz, algo se vai esmorecendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angustia e de olvido.
Assim como as redes não retêm a água.
Boneca minha, apenas ficam as gotas tremendo.
Sem apreensão, algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo elevasse a minha ávida boca.
Oh poder de celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, ir, como um sineiro nas mãos de um louco.
Triste ternura minha, que te faz assim de repente?
Quando é chegado o cume mais atrevido e frio
meu coração termina como uma flor noturna.

Poema 16


(Paráfrase a R. Tagore)

Em meu céu o crepúsculo é como uma nuvem
e tua cor e forma são como eu as quero
É minha, é minha, mulher de lábios doces
e vivem em tua vida meus infinitos sonhos.
A lâmpada de minha alma te ilumina os pés,
o agro vinho meu é mais doce em teus lábios:
oh segadeira de minha canção de entardecer,
como te sentem meus os sonhos solitários!
É minha, é minha, vou gritando entre a brisa
da tarde, e o vento arrasta minha voz luminária.
Caçadora do fundo de meus olhos, teu roubo
estanca como a água tua perspectiva noturna.
Na rede de minha música está presa, amor meu,
e minhas redes de música são extensa como o céu.
Minha alma nasce à beira de teus olhos de luto.
Em teus olhos de luto começam no país do sonho.

Poema 19


Filha morena e ágil, o sol que nasce das frutas,

e que dá essência aos trigos, e que torce as algas,
filho teu corpo alegre, teus luminosos olhos
e tua boca que tem o sorriso da água.
O sol negro e ansioso te enrola nos raios
de negros fios, quando esticas os braços.
Tu jogas com o sol como um esteiro
e ele te põem em teus olhos dois escuros remansos.
Filha morena e ágil, nada havia que ti me ajunta-se.
Tudo de ti me afasta, como o meio dia.
É a delirante juventude da abelha,
a embriaguez das ondas, a força da espiga.
Meu coração sombrio te busca, sem embargo,
e amo teu corpo alegre, tua voz solta e delgada.
Mariposa morena doce e definitiva,
como o trigal e o sol, a ampola e água.

A canção desesperada


Aparece tua recordação da noite em que estou.

O rio reúne-se ao mar seu lamento obstinado.

Abandonado como o impulso das auroras.

É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre meu coração chovem frias corolas.

Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!

Em ti se ajuntaram as guerras e os vôos.

De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.

Tudo que o bebeste, como a distância.

Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era a alegre hora do assalto e o beijo.

A hora do estupor que ardia como um faro.

Ansiedade de piloto, fúria de um búzio cego

túrgida embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de nevoa minha alma alada e ferida.

Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo.

Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio!

Fiz retroceder a muralha de sombra.

andei mais adiante do desejo e do ato.

Oh carne, carne minha, mulher que amei e perdi,

e em ti nesta hora úmida, evoco e faço o canto.

Como um vaso guardando a infinita ternura,

e o infinito olvido te quebrou como a um vaso.

Era a negra, negra solidão das ilhas,

e ali, mulher do amor, me acolheram os seus braços.

Era a sede e a fome, e tu foste à fruta.

Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.

Ah mulher, não sei como pode me conter

na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!

Meu desejo por ti foi o mais terrível e curto,

o mais revolto e ébrio, o mais tirante e ávido.

Cemitério de beijos,existe fogo em tuas tumbas,

e os racimos ainda ardem picotados pelos pássaros.

Oh a boca mordida, oh os beijados membros,

oh os famintos dentes, oh os corpos traçados.

Oh a cópula louca da esperança e esforço

em que nos ajuntamos e nos desesperamos.

E a ternura, leve como a água e a farinha.

E a palavra apenas começada nos lábios.

Esse foi meu destino e nele navegou o meu anseio,

y nele caiu meu anseio, Tudo em ti foi naufrágio!

Oh imundice dos escombros, que em ti tudo caía,

que a dor não exprimia, que ondas não te afogaram.

De tombo em tombo inda chamas-te e cantas-te

de pé como um marinheiro na proa de um barco.

Ainda floris-te em cantos, ainda rompes-te nas correntes.

Oh sentina dos escombros, poço aberto e amargo.

Pálido búzio cego, desventurado desgraçado,

descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a dura e fria hora

que a noite sujeita a todos seus horários.

O cinturão ruidoso do mar da cidade da costa.

Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como o impulso das auroras.

Somente a sombra tremula se retorce em minhas mãos.

Ah mais além de tudo. Ah mais além de tudo.

É a hora de partir. Oh abandonado.

Tradução: Eric Ponty
Fonte: http://www.psbnacional.org.br/upd_blob/0001/1081.pdf

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