quarta-feira, 23 de junho de 2010

Vladimir Maiakovski - A nuvem de calças

(…)
Se quiserem,
serei apenas carne louca
e, como o céu, mudarei de tom,
se quiserem,
serei impecavelmente delicado,
não serei homem, mas uma nuvem de calças !

Não acredito que haja uma Nice florida !
Hoje de novo canto a glória
dos homens que o pecado fez malignos
e das mulheres gastas como um lugar comum.
(…)

Maria ! Maria! Maria!
Abre, Maria !
Não me deixes na rua!
Não queres ?
Esperas
que fique de face bichosa,
provado por todas as mulheres,
insípido,
e venha
e diga, sem dentes,
que hoje
“sou duma castidade espantosa”?

Maria,
vês?,
já começo a andar curvado.

Pelas ruas
a gente sacode a banha de quatro papadas,
esbugalha os olhos,
gastos por quarenta anos de uso, -
e troca sorrisos,
porque eu levo nos dentes
- outra vez! –
os restos das carícias de ontem.

A chuva aborrecia os passeios,
dos charcos compacto ladrão,
molhado, lambendo o cadáver lapidado da rua,
e nas pestanas brancas,
- sim! -
nas pestanas de gelados carambanos,
lágrimas dos olhos
- sim! -
dos olhos baixos dos algerozes.
A chuva encharcando o rosto dos passantes,
enquanto nas carruagens brilhavam nédios atletas:
a gente rebentava
de comer por todos os lados.
e a banha saía-lhe dos poros.
em túrbidos riachos escorria da carruagem
junto com os restos das almôndegas
dos velhos tempos.

Maria !
Como havemos de fazer entrar nessa orelha sebosa uma palavra meiga?
A ave
vive de canções,
canta,
faminta e sonora,
mas eu sou homem, Maria,
simples,
na suja mão de Présnaia cuspido uma noite tísica.
Maria, queres-me assim?
Abre, Maria !
Com os dedos crispados apertarei a garganta de ferro da campainha!

Maria !
Enfurecem-se os currais das ruas.
No colo ferido os dedos cintos.

Abre!

Dói!

Vês? Tenho os olhos cheios
de alfinetes de chapéus de mulher !

Abriu.

Querida!
Não te assustes
que no meu costado de louco
haja sentadas mulheres de saias molhadas, -
é uma carga que levo comigo pela vida fora:
milhões de amores puros e enormes
e milhões de milhões de pequenos amores sujos.
Não temas
que de novo
caia na infidelidade habitual,
me atire a milhares de caras bonitas, -
as amantes de Maiakovski
são uma dinastia
de rainhas entronizadas no coração de um louco.

Maria, anda cá!

Nua e sem pudor,
ou com um tímido tremor,
mas dá-me o encanto dos teus lábios que nunca murcharão:
o meu coração nunca chegou a Maio,
na vida vivida
nunca passou de Abril.

Maria!
O poeta canta sonetos a Tiana,
e eu –
todo de carne,
todo humano –
só peço o teu corpo
como os cristãos pedem
“o pão nosso de cada dia
nos dai hoje”.

Maria – dá!

Maria !
Tenho medo de o teu nome esquecer,
como teme olvidar o poeta
a palavra
nascida no martírio nocturno
grande só como Deus.

Teu corpo
cuidarei e amarei,
como o soldado
mutilado na guerra,
inútil
e sem dono,
cuida da única perna.
Maria –
não queres?
Não queres?

Ah !

Quer dizer que de novo sombria e tristemente
pegarei no coração,
salpicado de lágrimas,
e o levarei
como um cão
que para a casota
arrasta
a pata atropelada.

Com sangue do meu coração ficará manchado o caminho
como com flores de fogo lançadas à poeira.
Mil vezes bailará o Sol à volta da Terra
como a filha de Herodes
à volta da cabeça do Baptista.

E quando os meus anos
bailem até ao fim –
cobrir-se-á com milhões de gotas de sangue
o caminho até à morada de meu pai.

Sairei então
sujo (de dormir nas sargetas),
e ponho-me a seu lado,
inclino-me
e digo-lhe ao ouvido:

- Escuta, senhor Deus !
Como é que não te aborreces
nessa gelatina de nuvens
deitando água todos os dias dos teus olhos bondosos ?
Sabes uma coisa ?
Vamos construir um carrocel
na árvore da sabedoria do Bem e do Mal.

Omnipresente, estarás em todos os armários,
e pomos à mesa uns vinhos e tais
que incitem a bailar
o taciturno apóstolo S. Pedro.
E de Ervas encheremos de novo o paraíso:
uma palavra tua, -
e esta mesma noite
pelas ruas juntarei
as mais belas raparigas.

Queres?

Ou não queres?

Abanas a cabeça, cabeludo?
Franzes as sobrancelhas cãs?
Achas
que esse aí
com asas, atrás de ti,
sabe o que é o amor?

Eu também sou um anjo, fui
como um cordeiro inocente,
mas fartei-me de dar às éguas
vasos feitos de sofrimento de Sévres.
Todo-poderoso, tu, que inventaste estas mãos,
que deste
uma cabeça a cada um de nós,
porque não decidiste
que sem sofrer
se pudesse beijar, beijar e abraçar?!

Julgava que eras um Deusão omnipotente,
mas não passas de um Deusito um pouco desajeitado.
Vês? Curvo-me
e da bota
tiro um punhal.
Patifes alados!
Agachai-vos no paraíso!
Eriçai as plumas e tremei de medo!
A Ti, que cheiras a incenso, cortarei
daqui até ao Alasca!

Deixem-me!

Não me detenham!
Certo
ou errado
não posso ficar calmo.
Olhem –
decapitaram mais estrelas
e ensanguentaram o céu como um matadouro!

Eh, tu!
Ó céu!
Tira o chapéu!
Que vou a passar eu!
Silêncio!

O Universo dorme
com a enorme orelha
cheia de estrelas
sobre a pata.

(1915)

Trad. de Manuel de Seabra
In Obras de Maiakovski- Volume I;
Vento de Leste, 1979

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