quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Fernando Pessoa - Deixei de ser aquele que esperava

Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,

E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.

Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.

E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence. 

Fonte: http://www.sonetos.com.br/sonetos.php?n=1443

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