terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vaine Darde - Despedida numa noite de agosto

A tarde cai mais cedo no horizonte
porque sabe que te vais...
As estrelas vestirão ponchos de nuvens  esta
noite
e, de hoje em diante, as outras noites,
nunca mais serão iguais.

A tarde cai desconsolada
murmurando seu pranto incontido
no rumor da ventania.
Vaga pelo pampa um prenúncio de aguaceiro
que já vem riscando luzes
nublando de lágrimas o cristal da poesia.

Desaba um temporal no lusco-fusco
como se fosse a última tentativa do dia
de impedir tua partida.
Mas, tu te vais, pelo mundo grande,
procurar caminhos...
Em que noite inquieta, tu me deixas,
que noite triste pra ficar sozinho!

Todas as palavras são inúteis
para que eu te convença.
pois já não ouves o amor que te festeja
com cânticos de sanga sobre o catre
não te encontram a prosa musical
de cada mate.
E a poesia órfã, a pobre poesia
que nos teus pés rasteja.

O zaino está inquieto.
Há um alvoroço alvorotando o arvoredo.
O vento, em vendaval, violenta a várzea aflita.
E tu te vais...
É sempre cedo quando verga a última esperança
de quem amou além do medo
e, de repente, se acovarda
e teme e sente o açoite da distância.

Ah, por que me deixas numa noite de agosto?
Tu sabes que meu sonho te acompanha
nesta hora nupcial de sol já posto
quando os bichos se aconchegam na campanha.

Não haverá fogo capaz de proteger-me
da gélida solidão da tua ausência,
nem poncho que repare
a falta que me faz
o calor dos teus abraços.

Eu estarei só
abandonado a todas as distâncias,
condenado a todas as sentenças,
triste e só, triste e só,
descrente de todos os auxílios,
vivendo, na querência, o mais rude dos exílios..

É melhor que tu te vás.
Pois, terei, pelo menos, o consolo
de que estarás distante e estarei alheio...
Pior é sofrer a tua ausência
a todo instante de silêncio e indiferença
no convívio amargo
do amor partido ao meio.

Eu sentirei a tua falta
em cada noite de insônia na solidão do catre,
pois tua ausência viverá presente em mim
até que o coração me abandone...

Bueno,
se te vais,
o último ônibus para o povo
se aproxima da porteira
e a noite choraminga
sobre a quincha do capim.

Se vais embora,
que seja agora,
adeus!
Eu ficarei sem ti.
E pior que ficar sem ti,
eu seguirei sem mim.

Seleção da @FezinhaSaldanha 

0 comentários:

Postar um comentário