quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Terezinha de Almeida - A uma criança de rua

No teu silêncio crescem rosa descarnadas
crescem rosa sem sangue
porque tuas veias estão vazias.

No teu silêncio, há uma rua solitária
molhada pelo teu chôro
e por onde jamais ninguém passou.

No teu silêncio nunca vieram os pássaros
em revoadas alegres
pousar nos ramos altos
de teus cílios escuros.

E quando tuas mais se despencarem no ar
à procura de sol
eram onde do mar
que regressavam às praias da vida.

Nos teus olhos, criança há morros desenhados
cobertos pela sombra
sem traços de côr, sem traços de luz.

Mas se sôbre teu rosto agora me debruço
vejo dentro de ti
a pureza, o soluço,
transformados num lírio
crescendo entre teus sonhos infantis.

E os meus dedos colhem também na madrugada
doce de tua boca
o primeiro sorriso
de um silencio que não tarda em morrer.

Fonte: Revista Fundamentos número 39 - Novembro de 1955.

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