sexta-feira, 22 de abril de 2011

Jorge Amado - Bahia, 1968 – o maldito

Por vias travessas recebo os originais de um livro de poemas, acompanhados de palavras escritas à mão: leia, guarde, um dia conversaremos, você me dirá o que acha. Conheço bem a letra, não faz assinatura: o autor dos poemas comanda a guerrilha urbana, seqüestra embaixadores, liberta presos políticos, caçam-no todas as polícias, as civis e as militares, torturadores e gorilas, chama-se Carlos Mariguela.
 
Poemas ardentes e ingênuos, mais revolução do que inspiração, musicaram alguns na Nicarágua: o grande poema de Mariguela foi sua vida, tem da epopéia e da berceuse, devotamento e luta, a determinação, a pureza, o destemor, a lealdade. Eu o conheci rapazola, cursava a Escola Politécnica da Bahia, tomado preso ainda adolescente cumpriu pena de dez anos de prisão, passou a juventude entre as grades da cadeia, não perdeu o ânimo, não se fez amargo, conservou o riso de menino, sabia rir como poucos são capazes, riso franco, sadio, confiante. Homem de ação e não teórico arrogante, a poesia marcou cada instante de sua vida.
 
Depois que o assassinaram seu nome foi tabu: maldito, não era pronunciado nem ouvido, nem sugeri-lo se podia: censuraram música de Jorge Bem, Meu amigo Charles, Charles podia ser Carlos, Carlos Marighela. Fraternos desde a adolescência, juntos prosseguimos na difícil travessia da esperança e do desespero – eu o vi chorar ao escutar o relato dos crimes de Stalin, perdêramos nossa pai -, militava na determinação e no escrúpulo, eu o sabia feito de ternura e ira. Em 1974 rompi com o tabu, escrevi sobre ele no Bahia de Todos os Santos: “retiro da maldição e do silêncio e aqui inscrevo seu nome de baiano, Carlos Marighela”.

Um dia chegou-me à casa do Rio Vermelho um telegrama anônimo mandado de São Paulo. Comunicava que os ossos de Carlos Marighela, se não aparecesse pessoa da família para reclamá-los, seriam atirados à vala comum: quem telegrafou não sei, porque a mim, entendo. Levei o telegrama ao irmão de Carlos, funcionário da Petrobrás, e a Carlinhos meu sobrinho. Os dois tomaram o ônibus para São Paulo, foram resgatar os ossos.
 
A memória de Carlos nós a resgatamos tempos depois ao enterrar aqueles ossos no Cemitério das Quintas, na Bahia, á sombra de monumento concebido por Oscar Niemeyer, pronunciei umas palavras, houve quem chorasse.


Navegação de cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei – Rio de Janeiro: Record, 1992, pág. 118.
Fonte: http://www.grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=53&id_noticia=4556

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